CRÓNICAS DE UM CLÁSSICO

O CPAA inaugura uma nova rúbrica, “Crónicas de um Clássico”, dedicada a histórias engraçadas, comoventes, inesquecíveis, que os sócios CPAA tenham para contar relativamente aos seus automóveis. Apresentamos a primeira história, narrada pelo nosso sócio Francisco Teixeira, onde fala carinhosamente de toda a aventura com o seu Ford Taunus.

Partilhe com o CPAA a sua história, através do email eventos@cpaa.pt.

Ford Taunus 17 Super Two Door (P3)

“Esta história de Amor começa no belo dia 5 de Abril de 1962: na antiga Auto Comercial OURO, Stand da Ford no Porto.

A minha Avó Paterna, Alice Torres, dirigiu-se ao stand no Porto e, após ter visto e testado o carro, decidiu comprá-lo para os seus passeios de fim de semana.

 

Este era um carro cuja publicidade estava muito dirigida para Senhoras. Assim, penso que terá atraído a atenção para a minha Avó Alice o comprar e, como não podia deixar de ser, o meu Pai na altura com 18 anos, deu “a sua ajudinha especial à Mãe”, pudera…!

 

Este carro, para além de económico e potente para o seu segmento, trazia uma grande inovação técnica para a altura no campo da aerodinâmica automóvel. Este modelo foi desenvolvido e produzido na Ford Alemanha (Ford Project 3 (P3) – Project NPX/D) pensado para reduzir ao máximo a força do atrito aerodinâmico, tendo o seu design inovador sido desenvolvido por Uwe Bahnsen, sob formas arredondadas e curvilíneas (daí a sua alcunha de “SABONETE”, pois assemelha-se muito de forma lateral).

 

Este carro foi um enorme sucesso de vendas, tendo sido produzidas 669.731 unidades na fábrica da Ford em Colonia, entre Setembro/1960 e Agosto/1964. Apresentado em Bona pelo próprio neto de Henry Ford.

Este carro era o “menino” dos olhos da minha avó. Só saia da garagem da Av. Camilo no Porto aos fins de semana e quando voltava era lavado, encerado e coberto com uma capa feita de propósito, ficando pronto para sair só no fim de semana seguinte. Pelo menos assim ela pensaria, pois o meu Pai lá conseguia as chaves do “menino” durante a semana e ia ter com a minha Mãe para os namoricos deles. Aliás, foi ela quem tirou esta fotografia!

Por vezes dou comigo a pensar, porque será que conheço tanto e tão bem este carro? Enfim, fica na imaginação de cada um!

 

Este, sempre foi um carro com um significado muito familiar. Quando ainda pequenito, lembro-me por várias vezes de passear com a minha avó a conduzir e ao passarmos na ponte da Arrábida ela dizer “Francisquinho, fecha o vidro da janela, pois assim não consigo conduzir”. Pois bem, quando chegava o meu avô de viagem, era festa pela certa, qual vidro fechado, qual rádio com som baixo. Até os estores do vidro traseiro andavam pelo ar dentro do carro!

 

Entretanto os anos passaram, os meus pais casaram-se e os meus avós paternos partiram, ficando o meu Pai e a minha Mãe com o carro cheio de memórias da sua juventude, e que memorias boas! Entretanto o “menino” foi ficando na garagem da Av. Camilo, onde sempre esteve, saindo raramente de vez em quando para o pôr a trabalhar.

Até que um dia veio definitivamente para a casa dos meus Pais, que já se encontrava em construção, onde permaneceu parado durante mais de 30 anos e com algumas “memórias de mecânica e chaparia” para serem arranjadas um dia com mais tempo!

Esta era a vontade do meu Pai, pois foi o carro da sua Mãe e também o da sua juventude e, onde tantas memórias tiveram lugar.

 

Entretanto o tempo foi passando e eu, ainda adolescente, de vez em quando lá conseguia encontrar as chaves do carro que estava sempre fechado e sentava-me ao volante, a mexer nos botões e na alavanca das velocidades e a pensar que um dia também eu iria conduzir este carro, como a minha avó Alice e meu Pai faziam.

Esse dia que o meu Pai queria que chegasse para o arranjar, nunca mais chegava. Infelizmente o tempo foi passando e o meu Pai partiu em 2016, com o seu “projeto” por terminar.

Eu, revoltado com o tempo porque não deu hipóteses ao meu Pai de arranjar o “menino”, reagi muito intempestivamente, transformando o carro no símbolo da minha revolta interior e incompreensão da vida.

Assim, decidi ser eu e sem qualquer conhecimento das coisas, a concluir o “projeto” do meu Pai. Comecei a desmontar tudo para expor o que teria de ser arranjado. Claro está, fui longe demais, deixando o carro neste estado “magnífico”.

Quando a revolta interior se foi esvaziando, eu só pensava “porque é que me meti nisto”. Não era isto que o meu Pai queria e agora eu ainda tinha piorado e muito a situação! A minha mãe dizia-me “filho tem calma, vais conseguir acabar o que o teu Pai gostaria. Dá tempo ao tempo e pára por favor de correr atrás dele!”

Fiquei louco quando me apercebi do que tinha feito. O “menino” estava desfeito, peças e pecinhas por todo lado…só pensava no que o meu Pai estaria a pensar com a minha atitude!

O carro ficou parado naquele estado, durante mais de 5 anos. Todos os dias que ia até á garagem, via aquele triste espetáculo! Se a minha dor fora forte anteriormente, agora estava insuportável.

Passaram-se mais de 5 anos e em 2022 decidi: ”É agora que vou resolver isto, já chega!”. Comecei a procurar quem me poderia ajudar. Todos diziam que eu não devia ter feito aquilo e blá, bla, blá… ainda me doía mais.

Entretanto conheço a minha esposa e começo a pensar que seria tão importante para mim utilizar este carro, que foi o carro onde os meus Pais namoraram. Seria como se um renovar e “lavar” do tempo com memórias tão importantes para mim! Quando ela viu o carro e o estado em que o deixei, ficou também apaixonada por ele e pela sua história.

Ganhei ainda mais alento e decidi que não iria parar até encontrar a solução. Quando encontrei, foi na hora. Não quis saber de mais nada. Eu apenas queria o “menino” de volta e assim foi, finalmente tinha chegado o tal dia, o tal dia do tempo!

Estava finalmente de partida para o “hospital” e com uma missão muito importante a concretizar! Iria ser o “nosso menino” das alianças! Estávamos em Setembro de 2022.

 

O nosso casamento era em Maio do ano seguinte (2023).

Quando chegamos no dia seguinte à oficina para o ver, o diagnóstico era tão “reservado” que eu nem queria acreditar! Estava tudo em jogo e sem tempo para grandes questões, era avançar de imediato! Assim começou a revitalização do tempo, das memórias….Era a carroçaria, o motor, a caixa de velocidades, a suspensão, os estofos, as cores tudo tinha que ser igual ao original, falta de peças, etc, foi uma loucura para todos e o tempo a passar…

 

Finalmente estava pronto! Dia 3 de Maio de 2023. O nosso casamento era no dia 5 (dois dias depois) e ainda faltava ser inspecionado e certificado!

A Patrícia no CPAA só me dizia por telemóvel, “tente por favor chegar antes de fechar”. Eu estava a sair da oficina, eram 14h e ainda tinha que percorrer 40 km até ao CPAA. Eu nunca sequer tinha conduzido o carro e se havia dia que iria chover bastante, pois tinha que ser aquele dia. O céu estava cinzento e eu só pedia para não chover, que nada falhasse e conseguir chegar a tempo.

Chego ao CPAA por volta das 15h30, nem tinha almoçado, logo a seguir cai uma chuvada tão forte no Porto, mas já tínhamos chegado! Começa a inspeção e a certificação do “menino”!

 

Finalmente passou! Estava inspecionado e certificado! Ufff, tinha conseguido!

Que emoção forte, ver finalmente o sonho concluído do meu Pai.

Pensando eu que tudo já estava ultrapassado e finalmente concluído, o meu Pai tinha ainda reservado a “grande surpresa” para mim!

Afinal e sem que eu tivesse qualquer informação ou ideia, ele já tinha deixado tudo preparado, para quando este dia chegasse tudo estivesse pronto!

De facto, tudo estava à minha espera desde 12/5/1990 e o “menino” já estava certificado desde 25/6/1990 com a placa de homologação nº966, ou seja, há mais de 33 anos à espera que este dia chegasse!

Como é fácil prever e depois de tantas emoções que sentia nesse dia, não consegui aguentar. As lágrimas da saudade, das memórias, da missão cumprida, do orgulho em ter conseguido e sobretudo da prenda que o meu Pai tinha deixado à minha espera, há mais de 33 anos. Correram de forma imparável pela cara. Foi mesmo muito forte a emoção que sentia!

 

Pois, e ainda tinha que terminar as coisas, porque me casava dois dias depois e o “menino” era um dos grandes centros de atenção, somente era o carro que levaria a minha noiva!

Assim se chega ao grande dia, tudo preparado, tudo pronto para levar a minha futura esposa!

 

Esta é a história do nosso “menino” Taunus 17m, talvez a mais marcante e importante para nós! Temos outras tantas mais para contar e viver, mas esta é a que nos define melhor!

Este é um carro de Amor, com uma força para além do seu motor e com uma cor mais forte que a da sua chapa! Este “menino” para nós é muito mais de que um carro, é um verdadeiro membro presente da história da nossa família!

O meu desejo para todos é para que vivam intensamente os vossos “meninos” e, para todos os que desejam “ter tempo para um dia” poderem dar vida ao vosso projeto, não se esqueçam que o “tempo sempre tem tempo para nós, vamos ter nós também ter tempo para o tempo”! Hoje é o nosso tempo, hoje é o tempo dos nossos “meninos”!

Quero agradecer ao CPAA por todo o carinho e atenção que tiveram para comigo nesta memorável aventura, assim como, nos sentimos profundamente honrados com o convite que me endereçaram, para podermos contar a nossa história a todos os associados!

Em memória ao meu Pai!

O nosso “menino” 61 anos depois….

Francisco Teixeira, Sócio CPAA nr.º 3005”