CRÓNICAS DE UM CLÁSSICO

O CPAA inaugurou uma nova rúbrica, “Crónicas de um Clássico”, dedicada a histórias engraçadas, comoventes, inesquecíveis, que os sócios CPAA tenham para contar relativamente aos seus automóveis.

O nosso sócio Carlos Silva conta toda a história do seu MG B.

Partilhe com o CPAA a sua história, através do email eventos@cpaa.pt.

“O MG que eu não tive…

Infância passada em S. Miguel – Açores entre os prazeres dos campos que se espraiam até a um Mar de azul profundo e único e as lagoas nas crateras dos vulcões, uns extintos, outros em sossego, vivi privilegiadamente.

Nascido no mágico continente negro por razões profissionais de meu Pai, que minha Mãe acompanhou sempre, fiquei com meus avós e um tio nos Açores.

Os automóveis faziam parte do contexto da família pois eram concessionários duma prestigiada marca francesa que nas ilhas se foi consolidando e progredindo na penetração do mercado.

Nos anos cinquenta assistia com frequência ao desembarque, na doca, de automóveis das mais diversas marcas, não tantas como hoje, quase sempre pretos e com os cromados cheios de graxa que, depois de limpos, era autênticos espelhos.

Sentar-me ao volante de um desses carros era alegria certa e desejo conquistado. Ouvir o roncar do seu motor e conseguir apitar era o êxtase infantil da criança de quatro/seis anos que fui.

Esta atitude só era suplantada quando, ao colo do meu tio e com as mãos pequenas agarradas ao volante, conseguia “conduzir” o carro pelas ruas de Ponta Delgada.

Era enorme o prazer que ainda hoje salta com alegria do subconsciente ao consciente.

Certa tarde o inconsciente ou o risco da ignorância fez com que, sozinho dentro do automóvel, o destravasse e desengatasse, enquanto minha avó e tio estavam a conversar, uns metros mais atrás no passeio, com um familiar…

A rua tinha uma pequena inclinação e as leis da física são isso mesmo e a viatura começou a rolar.

O que depois se seguiu foi a tentativa, conseguida com esforço, de contrariar a força da inércia por quatro braços, dois jovens do meu tio, dois idosos da minha avó, e um tremendo castigo…o de jamais “conduzir”.

Nunca mais me sentei ao colo do meu tio e nunca mais fui deixado só na sua viatura.

Mas o maravilhoso espírito infantil proporcionou-se lançar-me nas corridas em Dinky Toys nas pistas desenhadas e escavadas no quintal…o Cooper Clímax verde era o mais rápido e estável nas curvas… e ganhei muitas corridas ao seu volante!!!

Houve um dia em que o meu tio apareceu com um carro que não era preto, tinha uma frente muito comprida, as rodas tinhas raios como a minha bicicleta, o barulho que fazia era diferente do que eu estava habituado e, era lindo…tocava a alma da gente.

Mas, coisa estranha, só tinha dois lugares e o tecto era de um pano muito duro que se podia enrolar para trás e, coisa ainda mais estranha, o vidro da frente podia-se baixar.

Não entrei logo para dentro daquele carro tão esquisito…estava proibido de o fazer sozinho.

Mas o meu tio pegou em mim e por cima daquela pequena porta sentou.me do lado esquerdo do volante, outra novidade para mim, ainda por cima do lado da rua. Este carro tinha tudo ao contrário daqueles a que estava habituado!!! Como era possível ser tão lindo e elegante?

Sentado, não via a parte da frente, tive que me pôr de pé em cima do assento e levar um novo raspanete. De seguida eis que meu tio entrou no carro não me lembro se o fez de salto sem abrir a pequena porta, rodou uma chave, mexeu nuns botões e ouvi o roncar do motor a sair-me debaixo dos pés que mal tocavam o chão.

Não tirava os olhos de todos aqueles brilhantes “relógios” e nos meus ouvidos a música continuava, agressiva e forte nos primeiros acordes, suave e doce nos andamentos seguintes sempre acompanhados com um coro celestial de quartas vozes por fundo.

Não sei quanto tempo andámos e que distância. O que sei e recordo é que foram instantes.

Parado aquele lindo carro ao pé duma praia com mar por fundo, saltei num incontrolável impulso para o colo do meu tio para voltar a “conduzir”.

Ele nada me disse mas, tristeza das tristezas, não encontrei forme de me sentar ao seu colo e, confortável como era hábito nos outros carros, agarrar-me àquele volante que tinha raios e um emblema muito bonito no meio, sendo-me assim impossível “conduzir” aquele belo automóvel.

Pior que tudo o mais, foi por isto, a falta de espaço, que não tive o… “MEU MG”!!!!

Passados muitos anos consegui comprar um MG B.

Não é “Aquele MG”.

Meu tio tem 92 anos e eu devo-lhe um passeio no MEU MG.

Carlos Silva, Sócio CPAA nr.º 538”