CRÓNICAS DE UM CLÁSSICO

O CPAA inaugurou uma nova rúbrica, “Crónicas de um Clássico”, dedicada a histórias engraçadas, comoventes, inesquecíveis, que os sócios CPAA tenham para contar relativamente aos seus automóveis.

O nosso sócio Paulo Raimundo Aleixo conta toda a história do carro dos sonhos do seu mecânico:  um Triumph Herald de 1962.

Partilhe com o CPAA a sua história, através do email eventos@cpaa.pt.

“Um restauro de 10 Anos – Triumph Herald 1200

Ah, pois é! Costuma-se dizer que quando se começa um restauro nunca se sabe quando irá acabar. Primeiro vem a paixão e excitação da descoberta do clássico perfeito, depois as primeiras dificuldades e a desmotivação começam a tomar lugar, a seguir percebe-se que os problemas são muitos mais do que imaginámos e vem a desilusão e por vezes o abandono, por fim lá aparece uma oportunidade que agarramos com unhas e dentes explodimos de motivação e entusiasmo, só parando quando a obra fica finalmente terminada… nem que isso nos custe 10 anos de vida.

O Achado

Desde muito pequeno que Filipe Rodrigues se apaixonou pelos automóveis, em especial por clássicos, o que o fez dedicar-se à mecânica como carreira de vida, de forma polivalente nas diversas áreas de especializações.

Já adulto e em simultâneo, sempre que podia, colaborava com colecionadores na reparação, manutenção, restauro e até na condução em eventos de muitos clássicos, o que o tornou numa autêntica enciclopédia com profundos conhecimentos de quase todos os modelos e variantes de cada marca que lhe iam passando pelas mãos.

Por isso, desde sempre ambicionou possuir este clássico, mas sem sucesso até então.

Um belo dia, enquanto passeava por estradas secundárias da região de Leiria, passou por um portão aberto à beira estrada onde, de relance, viu umas poucas viaturas, de onde se destacava em 1º plano um velho mas aparentemente razoável Triumph Herald 1200, exatamente o único carro que o seu pai teve durante pouco tempo e que então, na sua inocência infantil, ele achava que era um desportivo de topo.

Ficou com esta memória para o resto da vida, mas nunca se cruzou com nenhum para venda.

Paragem brusca, encostar à berma e correr para o tal portão, que afinal era de um senhor que comprava e vendia alguns “chaços” em casa. Conversa puxa conversa e eis senão quando descobre que o carro datava do exato mês e ano do nascimento da sua mulher. Foi paixão sem retorno, que o ofuscou completamente em relação ao real estado, disfarçado, deste clássico. Nem interessava, pois era aquele o carro que sempre quis.

O Sonho Adiado

Embora à primeira-vista parecesse razoável para um restauro ligeiro, uma análise mais profunda logo após a compra, quase que levou Filipe Rodrigues à depressão total, quando começou a perceber o péssimo estado de degradação e a podridão generalizada do carro, assim que tirou os tapetes e os forros interiores: o carro mais parecia ter passado anos estacionado dentro de água, num charco de lama ou sobre mato húmido.

A paixão inicial estava a transformar-se num terrível pesadelo.

Como não tem garagem própria, socorreu-se de um amigo de longa data, também mecânico, para que o guardasse na sua já muito atulhada garagem da moradia… e ali ficou o seu sonho, quase ao abandono, durante 6 anos, onde pouco ou nada pôde tratar do carro.

O Restauro

Um certo dia, um outro amigo propõe-lhe que o trouxesse para a sua garagem, parcialmente equipada com uma pequena oficina onde o Filipe se entretinha aos sábados a reparar-lhe, manter e restaurar alguns clássicos de coleção. Foi então que se encheu de coragem e algumas poupanças para finalmente pôr mãos-à-obra e realizar o seu sonho de menino, que demorou mais de 3 anos a realizar.

Como quem “vai ao mar, avia-se em terra”, a bom tempo Filipe conseguiu comprar quase todas as peças de que iria necessitar em 2 conhecidas lojas inglesas online especializadas em Triumph, ainda a tempo antes do Brexit, poupando centenas de Euros em direitos alfandegários. Aliás, a opção por uma marca inglesa também teve em conta a enorme disponibilidade de peças novas e usadas no Reino Unido e não só.

10 anos após ter encontrado e adquirido o carro, 6 dos quais encafuado numa pequena garagem sem condições para trabalhar nele, finalmente uma casual oportunidade abriu as portas a Filipe Rodrigues para o tão desejado restauro deste Triumph Herald 1200, que acabou por ter que ser integral, ao longo de mais de 3 anos e milhares de horas, interrompido quase 1 ano devido à pandemia e respetivos consecutivos confinamentos.

Claro que para isto muito contou o enorme apoio e regulares colaborações do seu grande amigo e ex-colega José Luís Barros, mecânico da mais afamada marca de superdesportivos, dos bate-chapas Amílcar Ribeiro e Uedson, do pintor Wilson Catão Fernandes e do estofador Manuel Fragoso, entre alguns outros, todos seus ex-colegas e amigos em diferentes oficinas por onde passou ao longo da sua vida profissional.

Uma vez constituída esta equipa fantástica, foi tempo de arregaçarem mangas e dedicarem-se por inteiro a este desafio.

Com dedicação absoluta mas apenas nas horas livres: sábados, feriados e finais de tardes, que tinha que dividir com o apoio mecânico aos outros clássicos do seu amigo dono da garagem, lá conseguiu finalmente terminar o restauro e assim realizar o seu grande sonho de infância.

O Sonho Realizado

Feitas as contas no final, talvez o restauro não tivesse valido o custo, não fora o facto de se ter apaixonado por este carro e assim ter dado azo à sua paixão e sonho de menino… e o resultado não o poderia ter deixado mais orgulhoso.

E quem sabe se no final até não foi um bom investimento? Pelo menos para deixar de herança à filha e ao neto, que o poderão vender com lucro num futuro longínquo ou, melhor ainda, perpetuar deste modo a paixão pelos clássicos durante as próximas gerações. Afinal, o futuro constrói-se hoje e a história mantém-se para sempre.”